Mário Venda Nova / Fotografia

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2011

Actos de adoração (II)

“Ele lembrou-se do passado, lembrou-se dos episódios e das pessoas da sua terra. Mas não havia agora qualquer desejo de regressar, pois todos eles - Cévennes, os carneiros, a sua terra natal - tinham desaparecido no mar cor de fogo. Tinham desaparecido, todos eles, quando o mar se havia recusado a ceder. Todavia, Anri manteve os olhos no pôr do sol à medida que este mudava gradualmente de cor, consumindo-se pouco a pouco e transformando-se e cinzas. As árvores e as plantas de Shojo-ga-take, finalmente, dominadas pelas sombras, mostravam com mais nitidez ainda as nervuras das folhas e os contornos dos nós da madeira. Alguns dos muitos templos mais pequenos estavam já mergulhados no crepúsculo. As sombras rastejavam à volta dos pés de Anri; por cima dele o céu tinha adquirido um tom azul-escuro-acinzebtado. Havia ainda um brilho, longe, no mar alto, mas tinha sido comprimido pelo céu sombrio até se tornar numa faixa estreita em vermelhão e dourado. Então, enquanto Anri se detinha, fez-se ouvir vindo de baixo, o som grave e ressonante do sino de um templo; o sino da torre situada na vertente do monte tinha começado a dobrar, assimilando o fim do dia. O som chegava em ondas lentas que pareciam despertar vibrações na escuridão, espalhando-a em todas as direcções. O som gravemente ondulante não dizia propriamente as horas, antes as dissolvia imediatamente transportando-as para a eternidade.”

Yukio Mishima


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